Ao
entrar em vigor em outubro do próximo ano,
o novo Acordo Internacional do Café consolidará
definitivamente a nova face da Organização
Internacional do Café (OIC). O sexto acordo
firmado desde a criação da entidade,
em 1963, exclui definitivamente as cláusulas
econômicas das discussões da OIC. Questões
dessa ordem são do âmbito da Organização
Mundial do Comércio (OMC), deixou claro o Diretor-Executivo
da OIC, Nestor Osório, em entrevista
a Revista do Café, durante a 15ª edição
do Encafé, realizada entre os dias 14 e 18
de novembro, em Porto de Galinhas (PE).
“A OIC é um local de debates, de análises,
um lugar onde podemos discutir questões e apontar
caminhos sobre itens que sejam obstáculos ao
consumo”, explica. Questionado a respeito das
tarifas praticadas sobre o café solúvel
brasileiro, que deixam o produto nacional menos competitivo
que aquele originário, por exemplo, dos países
da América Central, Osório destaca que
o papel da OIC restringe-se ao envio à OMC
de análises e informes sobre a situação.
Simpático e solícito durante toda a
entrevista, o diretor executivo faz questão
de destacar que o novo acordo abandona todos os esquemas
anteriores e se consolida como um acordo de cooperação
entre os países produtores e os consumidores,
tendo sempre como referência o livre mercado.
Osório não responde diretamente à
provocação feita pela Revista do Café,
no editorial da edição de setembro de
2007, que diz que “o membro importador mantém
seus compromissos de remover obstáculos à
expansão do consumo, sem se obrigar de modo
mais efetivo à implementação
de medidas nesse sentido”.
Ele faz, sim, questão de destacar que o Acordo
não é uma lista de propostas vazias.
Trata-se, segundo ele, de compromissos políticos
entre países produtores e consumidores. Na
sua avaliação e expectativa, o novo
pacto deverá produzir resultados positivos
ao mercado, sem lançar mão de ferramentas
de intervenção. A grande aposta deste
Acordo está na sustentabilidade econômica,
social e ambiental.
O diretor da OIC destaca ainda que os Acordos anteriores
buscavam a estabilidade basicamente sob o ponto de
vista econômico. “Tal meta é impossível
de ser alcançada, tendo em vista que o mercado
apresenta ciclos de alta e de baixa produção
e, conseqüentemente, de altos ou baixos preços”,
explica. Por isso, o AIC que entra em vigor no próximo
ano, faz eco aos Objetivos do Milênio, traçados
pela ONU, e inclui um item completamente novo em seus
parâmetros de atuação: a ênfase
na sustentabilidade dos produtores de café.
Nesse sentido, o diretor executivo da OIC chama atenção
para o fato que 90% da produção mundial
é oriunda de pequenas propriedades, o que justifica
a preocupação da entidade com o auto-sustento
dessa parcela da população. Vale ressaltar
ainda que esse foi um item que obteve grande defesa
por parte dos Estados Unidos. O Brasil não
era o mais empolgado a esse respeito, talvez porque
as estatísticas não sejam tão
alarmantes para o lado de cá. Os números
em questão referem-se a dados internacionais
sobre o desemprego. A crise do começo do novo
século gerou 500 mil desempregados entre os
países centro-americanos e o México.
Esse dado, na avaliação de Osório,
também pesou para o retorno dos norte-americanos
à entidade.
Afastado da OIC desde 1994, de onde saiu por não
concordar com o controle do mercado, os Estados Unidos
foram bastante ativos na negociação
do acordo. Para o dirigente, esse é um motivo
a comemorar, afinal, o que estava em jogo era a adesão
do país que responde pelo maior mercado consumidor
de café no momento. Nesse período de
negociação para o retorno norte-americano
à OIC, Osório conta que viajou àquele
país mais de 20 vezes para reunir-se com representantes
políticos. Finalmente, a Câmara aconselhou
o país a voltar aos quadros da entidade.
“É muito especial que os Estados Unidos
tenham decidido participar desse fórum multilateral,
pois atesta a importância que eles dão
ao café”, ressalta Osório. Essa
foi, de fato, uma das únicas vezes que o país
participou de um acordo multilateral. Em geral, os
norte-americanos só fazem acordos bilaterais.
Um motivo apontado para esse interesse, conforme o
diretor executivo da OIC, foi a mudança no
pessoal. “A delegação que participa
da OIC não é a mesma que era ligada
ao USTR e, portanto, focada no negócio. Este
pessoal tem mais foco no desenvolvimento”, explica.
A sustentabilidade proposta pela OIC não abrange
apenas a questão econômica, mas também
social e ambiental. Na questão econômica,
o dirigente explica que o preço precisa ser
remunerativo para o produtor e admite que os preços
que recompensam variam de região para região,
uma vez que o custo de produção é
diferente. Na sua avaliação, um valor
que remunera é aquele que o cafeicultor cobre
seu custo de produção e tem uma margem
para reaplicar na lavoura e outra para viver, educar
seus filhos e pagar os serviços de saúde
para sua família. Na sua avaliação,
valores entre US$1,30 e US$ 1,50 por libra-peso são
remunerativos e não fazem explodir a produção,
tampouco refreiam o consumo. Com essa prática,
garante-se as duas primeiras formas de sustentabilidade.
Já a ambiental, vem do incremento no manejo
do cafezal. Para Nestor Osório, as chances
de a renda dos produtores aumentar a partir da produção
de cafés sustentáveis do ponto de vista
ecológico são grandes. Há um
mercado crescente para esse tipo de café nos
países consumidores. Quanto ao Brasil, sem
dúvida, ele assegura, há muito menos
a ser feito do que em países como os do continente
africano. Isso, no entanto, não impede que
os produtores se questionem a respeito da viabilidade
de implementação de programas de sustentabilidade
com vistas a obter selos que atestam a qualidade do
produto. Ele lembra que a cultura do café é
uma das grandes seqüestradoras de carbono da
atmosfera.
Certificar café todos sabem que não
é das coisas mais baratas. Osório admite
que existirá a demanda por um investimento
e que caberá ao produtor julgar se vale a pena,
ou não, fazer o investimento. “Para alguns
países será mais caro do que para outros”,
afirma, referindo-se ao diferencial do nível
de desenvolvimento das lavouras nos diversos países.
No caso brasileiro, ele vê uma situação
mais adiantada do que em muitas outras origens.
Osório reconhece que há gastos na certificação
e que para alguns produtores sairá mais custoso.
Ainda não há uma solução
fechada pela OIC, nesse sentido, mas o diretor executivo
revela que está desenvolvendo um estudo de
custo-benefício da certificação.
Os dados finais serão utilizados para negociações,
que podem incluir também os países consumidores,
e fundos como o Fundo Comum de Produtos Básicos,
da ONU. Nos últimos sete anos, o Fundo liberou
US$ 80 milhões para a implementação
de projetos na África, América Latina
e Ásia.
Essas parcerias são fundamentais para a operacionalização
dos programas da OIC, já que o caixa da entidade
é quase nulo. Ao longo de quase duas horas
de conversa, Nestor Osório deixou bem claro
a importância que o recém-criado Comitê
de Promoção e Desenvolvimento tem nessa
nova roupagem da entidade. É esse Comitê
que será o encarregado de definir como serão
obtidos os recursos para viabilizar os projetos avaliados
positivamente pelo Comitê de Projeto.
|