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Dezembro 2007 - Ano 86 - Nº 824

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“Menino, levado pela mão de meu pai, olhei para cima e deparei pela primeira vez na vida com a imponência de um palácio. O movimento na rua, a velha Rua XV de Novembro, já me chamara a atenção duas vezes, antes de chegar àquela esquina. Primeiro, ao reparar naqueles homens apressados, engravatados, carregando enormes canudos, aos meus olhos, de papelão. O que haveria dentro deles? Segundo, ao perceber quanto meu pai era conhecido e respeitado. As pessoas o cumprimentavam, alguns o detinham para uma prosa. Foi numa dessas paradas que olhei para cima e li: Bolsa Oficial de Café”.

Mário Covas Jr. (ex-governador de São Paulo – 1995/2001).

Pelo menos, quatro ícones fustigados pela erosão do tempo, depois de mais de 20 anos de solidão e olhar perdido no horizonte, vão ter companhia. Assim que os três relógios componentes da torre do lado de mar da Bolsa de Café e Mercadorias de Santos voltarem a funcionar e tocarem o “bim”-“bão”, as esculturas, dez metros acima, na cúpula, também vão ganhar vida nova. Elas representam a mulher que veio da lavoura, um homem procedente do comércio, outro da indústria e o último, da navegação. E o centro-velho de Santos, com o prédio da bolsa como âncora, terá maior expressão.

A boa nova não vem por acaso. Inaugurado em 1922, no Centenário da Independência, o Palácio da Bolsa, após décadas de prestígio internacional, entrou em declínio visual e estrutural, ainda que depositário de inestimável acervo histórico – o próprio edifício, o salão dos pregões, rico em arquitetura e as telas de Benedicto Calixto. Infiltrações de águas de chuva, sujeira de pombos, ‘dormitório’ de moradores de rua, arrombamentos, faziam o universo do lugar. Foi preciso que um governador do Estado, então Mário Covas Jr., santista de nascimento e envolvido por laços sentimentais, levasse a sério a recuperação e restauração do prédio e agilizasse a liberação de verbas, até a conclusão das obras, em 1998.

A formação da Associação dos Amigos do Museu dos Cafés do Brasil, em março daquele ano, deu sustentação à continuidade do ideal de preservação do palácio, com inúmeras melhorias, criação de eventos de cunho cultural, histórico e turístico e recuperação de equipamentos. Os relógios, com cerca de 2,4 m de diâmetro, voltados para três faces do centro-velho, constituem uma engrenagem artesanal, tal como na época em que foram montados, vindos de Londres, reflexo da predominância de uma especialidade inglesa, bem demonstrada em estações de estradas de ferro espalhadas pelo país. Os ingleses se esmeraram em construções de ferrovias e como toda estação precisa de um relógio de bom tamanho, para ser visto à distância, de preferência pontual, vieram os relojoeiros.

“O que mais estragou esses relógios (da bolsa) foi a maresia. Mas tivemos sorte, pois na reparação anterior (de mais de 20 anos), o profissional substituiu as peças originais por uma máquina, guardando-as. Estamos recuperando-as com trabalhos de torno e embuxamento”, narra Antonio Rodrigues de Lima, o relojoeiro-artesão contratado pelo Museu dos Cafés do Brasil.

Seu Toninho, como é conhecido, tem um currículo invejável, uma autêntica ave rara no meio. Cuida dos relógios ‘artísticos’ do Governo de São Paulo, com quem tem contrato de prestação de serviços e lista alguns sob seu trato: o da Estação de Paranapiacaba (sub-prefeitura de Santo André, SP – conhecida como Vila dos Ingleses); da igreja da NS da Consolação, capital paulista e da Companhia Telefônica, que ficou com o acervo da Western Telegraph, em Santos. Mas o mais notável deve ser o da Estação da Luz, em São Paulo, onde se situam a Sala São Paulo, de espetáculos, e o Museu da Língua Portuguesa. Natural de Palmeira dos Índios, Alagoas, Toninho aprendeu o ofício com seu pai e já pôs no mesmo caminho o filho, Alexandre, 29 anos. Ele espera concluir a empreitada até o final de 2007, ocasião em que Guilherme Braga, presidente do Museu, prepara uma solenidade à altura. “Será mais um presente para Santos e mais uma demonstração que o café e seus homens empenham-se na preservação de sua memória e de seus símbolos”, festeja Braga.

Os relógios estão a cerca de 30 m de altura, na confluência das ruas Frei Gaspar e Antônio Prado, a poucos metros do cais e logo poderão se transformar em nova atração. A prefeitura de Santos negocia com a Codesp, estatal que administra o porto, a cessão de uma área fronteiriça à torre maior da bolsa, para desenvolver um complexo náutico, comercial, de lazer e turismo.

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