“Menino,
levado pela mão de meu pai, olhei para cima
e deparei pela primeira vez na vida com a imponência
de um palácio. O movimento na rua, a velha
Rua XV de Novembro, já me chamara a atenção
duas vezes, antes de chegar àquela esquina.
Primeiro, ao reparar naqueles homens apressados, engravatados,
carregando enormes canudos, aos meus olhos, de papelão.
O que haveria dentro deles? Segundo, ao perceber quanto
meu pai era conhecido e respeitado. As pessoas o cumprimentavam,
alguns o detinham para uma prosa. Foi numa dessas
paradas que olhei para cima e li: Bolsa Oficial de
Café”.
Mário
Covas Jr. (ex-governador de São Paulo –
1995/2001).
Pelo menos,
quatro ícones fustigados pela erosão
do tempo, depois de mais de 20 anos de solidão
e olhar perdido no horizonte, vão ter companhia.
Assim que os três relógios componentes
da torre do lado de mar da Bolsa de Café e
Mercadorias de Santos voltarem a funcionar e tocarem
o “bim”-“bão”, as esculturas,
dez metros acima, na cúpula, também
vão ganhar vida nova. Elas representam a mulher
que veio da lavoura, um homem procedente do comércio,
outro da indústria e o último, da navegação.
E o centro-velho de Santos, com o prédio da
bolsa como âncora, terá maior expressão.
| A
boa nova não vem por acaso. Inaugurado
em 1922, no Centenário da Independência,
o Palácio da Bolsa, após décadas
de prestígio internacional, entrou em declínio
visual e estrutural, ainda que depositário
de inestimável acervo histórico
– o próprio edifício, o salão
dos pregões, rico em arquitetura e as telas
de Benedicto Calixto. Infiltrações
de águas de chuva, sujeira de pombos, ‘dormitório’
de moradores de rua, arrombamentos, faziam o universo
do lugar. Foi preciso que um governador do Estado,
então Mário Covas Jr., santista
de nascimento e envolvido por laços sentimentais,
levasse a sério a recuperação
e restauração do prédio e
agilizasse a liberação de verbas,
até a conclusão das obras, em 1998. |
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A formação da Associação
dos Amigos do Museu dos Cafés do Brasil, em
março daquele ano, deu sustentação
à continuidade do ideal de preservação
do palácio, com inúmeras melhorias,
criação de eventos de cunho cultural,
histórico e turístico e recuperação
de equipamentos. Os relógios, com cerca de
2,4 m de diâmetro, voltados para três
faces do centro-velho, constituem uma engrenagem artesanal,
tal como na época em que foram montados, vindos
de Londres, reflexo da predominância de uma
especialidade inglesa, bem demonstrada em estações
de estradas de ferro espalhadas pelo país.
Os ingleses se esmeraram em construções
de ferrovias e como toda estação precisa
de um relógio de bom tamanho, para ser visto
à distância, de preferência pontual,
vieram os relojoeiros.
“O que mais estragou esses relógios (da
bolsa) foi a maresia. Mas tivemos sorte, pois na reparação
anterior (de mais de 20 anos), o profissional substituiu
as peças originais por uma máquina,
guardando-as. Estamos recuperando-as com trabalhos
de torno e embuxamento”, narra Antonio Rodrigues
de Lima, o relojoeiro-artesão contratado pelo
Museu dos Cafés do Brasil.
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Seu
Toninho, como é conhecido, tem um currículo
invejável, uma autêntica ave rara
no meio. Cuida dos relógios ‘artísticos’
do Governo de São Paulo, com quem tem contrato
de prestação de serviços
e lista alguns sob seu trato: o da Estação
de Paranapiacaba (sub-prefeitura de Santo André,
SP – conhecida como Vila dos Ingleses);
da igreja da NS da Consolação, capital
paulista e da Companhia Telefônica, que
ficou com o acervo da Western Telegraph, em Santos.
Mas o mais notável deve ser o da Estação
da Luz, em São Paulo, onde se situam a
Sala São Paulo, de espetáculos,
e o Museu da Língua Portuguesa. Natural
de Palmeira dos Índios, Alagoas, Toninho
aprendeu o ofício com seu pai e já
pôs no mesmo caminho o filho, Alexandre,
29 anos. Ele espera concluir a empreitada até
o final de 2007, ocasião em que Guilherme
Braga, presidente do Museu, prepara uma solenidade
à altura. “Será mais um presente
para Santos e mais uma demonstração
que o café e seus homens empenham-se na
preservação de sua memória
e de seus símbolos”, festeja Braga. |
Os relógios estão a cerca de 30 m de
altura, na confluência das ruas Frei Gaspar
e Antônio Prado, a poucos metros do cais e logo
poderão se transformar em nova atração.
A prefeitura de Santos negocia com a Codesp, estatal
que administra o porto, a cessão de uma área
fronteiriça à torre maior da bolsa,
para desenvolver um complexo náutico, comercial,
de lazer e turismo.
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