Preconceito
e desinformação costumam andar lado
a lado, um sustentando o outro e justificando a origem
de ambos. É o que se depreende quando analisamos
recentes artigos publicados na imprensa européia
sobre a expansão do cultivo da soja e de outras
culturas no Brasil.
Muitos insistem em ignorar que o crescimento se deve,
em grande parte, à eficiência de pesquisadores
e de produtores em encontrar plantas mais produtivas.
Sem falar no sucesso crescente de sistemas de industrialização
e comercialização, apesar da ainda deficitária
infra-estrutura logística, em especial no Centro-Oeste
brasileiro.
No entanto, há muita confusão entre
a área ocupada pela floresta amazônica
e a chamada Amazônia Legal, esta criada para
fins de planejamento econômico a pedido dos
Estados, englobando, além do território
da floresta, biomas diversos em Mato Grosso, Tocantins
e parte do Maranhão.
A parte brasileira da floresta amazônica representa
36% do território, e o bioma amazônico
abrange 50% do país. Para ter uma dimensão
do bioma amazônico, vale dizer que poderia envolver
20 países europeus. Já a Amazônia
Legal ocupa 60% do Brasil e, por ser ainda mais abrangente,
contém parte do bioma cerrado, que se assemelha,
em geral, à savana, com gramíneas, arbustos
e árvores esparsas.
| “Debater
a necessidade de reduzir o protecionismo de países
desenvolvidos é mais útil ao desenvolvimento
sustentável do planeta” |
Na Amazônia Legal, que não significa
apenas a floresta amazônica, mas sim vários
outros biomas e nove Estados, vivem 23 milhões
de brasileiros -cerca de um terço da população
francesa. Lá estão, além de emprego
e renda, os bons índices de qualidade de vida
medidos pelo IDH (Índice de Desenvolvimento
Humano), da ONU, que são superiores à
média nacional.
Da formação original, estimada em 600
milhões de hectares, o Brasil mantém
preservados 440 milhões de hectares, ou seja,
60% da área primitiva. Essa área corresponde
a 28% do total de florestas do planeta, atualmente.
Enquanto isso, a maioria dos países devastou
suas florestas. Na Europa, por exemplo, o índice
de floresta original é inferior a 0,5%.
No Brasil, as áreas com florestas protegidas
são as indígenas, com 108 milhões
de hectares, e as de conservação federais
e estaduais, com 111,6 milhões de hectares.
São mais de 219 milhões de hectares,
ou seja, 25,9% do território. Além disso,
leis rígidas obrigam a criação
de áreas de preservação permanente
e de reserva legal.
Afirmações como “a soja vai sufocar
a Amazônia” desconsideram que os 70 mil
km2 -ou seja, 7 milhões de hectares- que são
utilizados para o plantio na região representam
menos de meio ponto percentual (0,26%) do bioma amazônico.
Tampouco se leva em conta o esforço do governo
Lula para a redução do desmatamento,
em declínio nos últimos anos. Além
disso, registramos ações positivas da
iniciativa privada e medidas como a moratória
da soja, em que o cultivo responsável beneficia
as agroindústrias que não compram soja
proveniente de floresta desmatada desde 2006.
Seria mais útil ao desenvolvimento sustentável
do planeta o debate sobre a necessidade de reduzir
o protecionismo de países desenvolvidos sobre
os produtos que competem com os de países em
desenvolvimento, como o Brasil. Essa realidade faz
com que tenhamos dificuldades em diversificar e agregar
valor ao que produzimos. Para fazermos chegar nossos
produtos, a maior parte de commodities, ao mercado
exterior, nos submetemos a rígidas restrições
tributárias e a tarifas altíssimas,
como 310% para carne suína (Japão);
167% para o açúcar (EUA); 177% para
carne bovina (UE); 95% para frango congelado em partes
(UE). São tarifas que proíbem o Brasil
de plantar mais milho, por exemplo, e de beneficiar
carnes para obter remuneração adequada.
Ao eleger a soja como inimiga número um da
floresta amazônica, deixa-se esquecido que o
Brasil tem vocação para o desenvolvimento
sustentável, possuindo uma matriz energética
em que 45% dos recursos provêm de fontes renováveis.
Isso nos coloca entre os poucos países com
oferta de energia limpa e renovável, com capacidade
de se tornar um grande fornecedor nessa área.
No entanto, o Brasil produz, primeiramente, para alimentar
190 milhões de brasileiros, e da soja se extrai
a proteína mais barata do mundo que, além
de suprir as necessidades alimentares da população,
auxilia na dieta de bovinos, suínos e ovinos
dos rebanhos europeus e asiáticos.
Esses fatos incontestáveis, mas pouco abordados,
mostram que está na hora de os conceitos sobre
o Brasil serem revistos e de o respeito ao povo brasileiro
ser mais exercitado.
Reinhold
Stephanes, 67,
economista, deputado federal licenciado (PMDB-PR),
é Ministro da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento. Foi Ministro do Trabalho e Previdência
Social (1992-1995) e da Previdência e Assistência
Social (1995-1998).
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