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Dezembro 2007 - Ano 86 - Nº 824

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Falar de café com Ruy Barreto não significa somente ter uma aula de história sobre o passado da cafeicultura brasileira, é também vislumbrar as possibilidades futuras da atividade. “Ainda sou um fanático pelo café e acredito que o café pode trazer muita felicidade para o país”, afirma o empresário, do alto de seus sessenta anos dedicados ao setor.

Nascido em 1927, em Muriaé, Minas Gerais, no coração da zona da mata cafeeira, o destino mostrava-se sem muitas surpresas para Barreto. Seu pai era comissário de café na região, possuindo dois armazéns, comprando café em côco de produtores para beneficiá-lo e vendê-lo aos exportadores e torrefadoras. Da mesma forma que alguns produtores se orgulham de ter nascido debaixo de um pé de café, Barreto pode dizer que nasceu dentro de um armazém.


Ruy e Rosa Maria Barreto
Barreto abraçou seu destino, no entanto, com um entusiasmo singular. Começou trabalhando como office boy na empresa do pai, que havia se mudado para o Rio de Janeiro. Em breve, passou a prestar serviços de despachante para empresas exportadoras. A enorme burocracia da época conferia um prestígio especial a esse trabalho. “Demorava-se cinco dias para liberar uma exportação. A liberação requeria 35 documentos, 180 assinaturas e passava por vinte e duas repartições públicas. Era uma coisa louca”, lembra Barreto, a quem o know how adquirido seria extremamente útil em seu futuro profissional. Curiosidade: nesta mesma época, Barreto desenhava quadrinhos para a revista Gibi, do jornal O Globo.

Pouco depois, em 1948, Barreto inaugura sua própria empresa, a Armazéns Gerais, sediada na tradicional avenida Rodrigues Alves. Tinha vinte e um anos e desde logo tornou-se membro e diretor da Associação Comercial do Rio de Janeiro, outra atividade a qual iria se dedicar com afinco, durante cinqüenta anos, tendo inclusive exercido, mais tarde, o cargo de presidente da Confederação das Associações Comerciais do Brasil.

“O café propiciou tudo que eu tenho, inclusive minha esposa”, diz o empresário, que acaba de completar bodas de ouro, 50 anos de casamento com Rosa Maria Barreto, em comemoração que reuniu centenas de companheiros do setor cafeeiro, e está registrada nas páginas desta edição da Revista do Café. “Tenho três filhos maravilhosos: Cecília, a mais velha, que cuida do uso desse edifício magnífico, com 100 anos e 15 mil metros quadrados [o prédio da fábrica Bhering, do Grupo Barreto] e hoje se tornou um importante centro de cinematografia; o Rafael, o do meio, que cuida da parte patrimonial do grupo; e o Ruy, mais novo, que assumiu as operações ligadas ao café, e que está agora no Vietnam”.


A relação entre a decadência da cafeicultura fluminense e a favelização da cidade do Rio de Janeiro é um tema recorrente nas conversas com Ruy Barreto. Ele cita estudos do IBGE que indicam que 83% da população das favelas cariocas têm origem no norte do Estado, outrora a principal região cafeeira do país, mas que entrou em declínio acentuado após a decisão do Instituto Brasileiro do Café (extinto em 1991) de começar ali o Plano de Erradicação de Cafezais, pagando por planta arrancada. Atualmente, a região apresenta um dos piores índices econômicos do Brasil, e tem uma estrutura fundiária desequilibrada e decadente, com predomínio de microfúndios, resultado de sucessivas divisões por herança.

Barreto lembra que o sul de Minas tinha uma situação similar até o início da década de 70, até que surgiu uma figura chamada Mario Pacini, mineiro de Manhuaçu, vice-presidente do Banco do Brasil, que convence a instituição a liberar crédito para a reestruturação fundiária e agrícola da região. Na época, observa Barreto, o sul de Minas produzia cerca de 500 mil sacas, era uma região em decadência. Hoje produz mais de 10 milhões, nos anos bons. Um projeto similar ao adotado por Paccini seria a única forma de resolver o problema do emprego no Rio de Janeiro, causa principal, segundo Barreto, dos altos índices de criminalidade da metrópole, que mancham a reputação do país. “O Rio é o estado com maior vocação para o café, devido ao clima, à topografia, à reserva de mão-de-obra, à proximidade do porto e da grande quantidade de café consumida. Hoje, o Rio não produz 1% dos 1,6 milhões de sacas que consome!”, argumenta o empresário.

Ele também viveu de perto a odisséia do deslocamento da cafeicultura para o Paraná, no início da década de 50. O café expandiu-se no Paraná a um ritmo incrível, com a produção superando 40 milhões de sacas em poucos anos, numa área vulnerável à geadas. Em 1956/57, lembra Barreto, a crise de super-produção chegou a tal ponto que o governo, tentando conter a conseqüente derrocada dos preços, iniciou um vigoroso plano de compra e estocagem de café, autorizando um grande número de armazéns particulares a executar o serviço. Aproveitando a oportunidade, Barreto instala diversos armazéns no estado, ajudando o setor a enfrentar aquele grave momento.

O governo, diante do excesso de café, e impedido de destruí-lo em função dos compromissos internacionais que estavam em discussão – Oswaldo Aranha havia proposto o Acordo Internacional do Café em 1954, na sede das Nações Unidas –, chama o setor privado para buscar saídas. Ruy Barreto participou da solução encontrada: direcionar aquele café ao mercado doméstico. O governo passou a subsidiar 80% do preço do café adquirido para o consumo interno. Através desse programa, que durou treze anos, o consumo de café no Brasil, inferior a 2 milhões de sacas e de péssima qualidade, registra um salto considerável, consolidando o país como um dos maiores consumidores mundiais de café e reduzindo a dependência do mercado externo.

Ruy Barreto continua acreditando no futuro da cafeicultura brasileira e acha que a expansão do plantio de grãos deverá empurrar o café para regiões montanhosas. “A tendência do café é subir o morro, liberando vales e planícies para as culturas mais mecanizáveis”, prevê o empresário.

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