Falar
de café com Ruy Barreto não significa
somente ter uma aula de história sobre o passado
da cafeicultura brasileira, é também
vislumbrar as possibilidades futuras da atividade.
“Ainda sou um fanático pelo café
e acredito que o café pode trazer muita felicidade
para o país”, afirma o empresário,
do alto de seus sessenta anos dedicados ao setor.
Nascido em 1927, em Muriaé, Minas Gerais, no
coração da zona da mata cafeeira, o
destino mostrava-se sem muitas surpresas para Barreto.
Seu pai era comissário de café na região,
possuindo dois armazéns, comprando café
em côco de produtores para beneficiá-lo
e vendê-lo aos exportadores e torrefadoras.
Da mesma forma que alguns produtores se orgulham de
ter nascido debaixo de um pé de café,
Barreto pode dizer que nasceu dentro de um armazém.
Ruy
e Rosa Maria Barreto |
Barreto
abraçou seu destino, no entanto, com um
entusiasmo singular. Começou trabalhando
como office boy na empresa do pai, que havia se
mudado para o Rio de Janeiro. Em breve, passou
a prestar serviços de despachante para
empresas exportadoras. A enorme burocracia da
época conferia um prestígio especial
a esse trabalho. “Demorava-se cinco dias
para liberar uma exportação. A liberação
requeria 35 documentos, 180 assinaturas e passava
por vinte e duas repartições públicas.
Era uma coisa louca”, lembra Barreto, a
quem o know how adquirido seria extremamente útil
em seu futuro profissional. Curiosidade: nesta
mesma época, Barreto desenhava quadrinhos
para a revista Gibi, do jornal O Globo. |
Pouco depois, em 1948, Barreto inaugura sua própria
empresa, a Armazéns Gerais, sediada na tradicional
avenida Rodrigues Alves. Tinha vinte e um anos e desde
logo tornou-se membro e diretor da Associação
Comercial do Rio de Janeiro, outra atividade a qual
iria se dedicar com afinco, durante cinqüenta
anos, tendo inclusive exercido, mais tarde, o cargo
de presidente da Confederação das Associações
Comerciais do Brasil.
“O café propiciou tudo que eu tenho,
inclusive minha esposa”, diz o empresário,
que acaba de completar bodas de ouro, 50 anos de casamento
com Rosa Maria Barreto, em comemoração
que reuniu centenas de companheiros do setor cafeeiro,
e está registrada nas páginas desta
edição da Revista do Café. “Tenho
três filhos maravilhosos: Cecília, a
mais velha, que cuida do uso desse edifício
magnífico, com 100 anos e 15 mil metros quadrados
[o prédio da fábrica Bhering, do Grupo
Barreto] e hoje se tornou um importante centro de
cinematografia; o Rafael, o do meio, que cuida da
parte patrimonial do grupo; e o Ruy, mais novo, que
assumiu as operações ligadas ao café,
e que está agora no Vietnam”.
A relação entre a decadência da
cafeicultura fluminense e a favelização
da cidade do Rio de Janeiro é um tema recorrente
nas conversas com Ruy Barreto. Ele cita estudos do
IBGE que indicam que 83% da população
das favelas cariocas têm origem no norte do
Estado, outrora a principal região cafeeira
do país, mas que entrou em declínio
acentuado após a decisão do Instituto
Brasileiro do Café (extinto em 1991) de começar
ali o Plano de Erradicação de Cafezais,
pagando por planta arrancada. Atualmente, a região
apresenta um dos piores índices econômicos
do Brasil, e tem uma estrutura fundiária desequilibrada
e decadente, com predomínio de microfúndios,
resultado de sucessivas divisões por herança.
Barreto lembra que o sul de Minas tinha uma situação
similar até o início da década
de 70, até que surgiu uma figura chamada Mario
Pacini, mineiro de Manhuaçu, vice-presidente
do Banco do Brasil, que convence a instituição
a liberar crédito para a reestruturação
fundiária e agrícola da região.
Na época, observa Barreto, o sul de Minas produzia
cerca de 500 mil sacas, era uma região em decadência.
Hoje produz mais de 10 milhões, nos anos bons.
Um projeto similar ao adotado por Paccini seria a
única forma de resolver o problema do emprego
no Rio de Janeiro, causa principal, segundo Barreto,
dos altos índices de criminalidade da metrópole,
que mancham a reputação do país.
“O Rio é o estado com maior vocação
para o café, devido ao clima, à topografia,
à reserva de mão-de-obra, à proximidade
do porto e da grande quantidade de café consumida.
Hoje, o Rio não produz 1% dos 1,6 milhões
de sacas que consome!”, argumenta o empresário.
Ele também viveu de perto a odisséia
do deslocamento da cafeicultura para o Paraná,
no início da década de 50. O café
expandiu-se no Paraná a um ritmo incrível,
com a produção superando 40 milhões
de sacas em poucos anos, numa área vulnerável
à geadas. Em 1956/57, lembra Barreto, a crise
de super-produção chegou a tal ponto
que o governo, tentando conter a conseqüente
derrocada dos preços, iniciou um vigoroso plano
de compra e estocagem de café, autorizando
um grande número de armazéns particulares
a executar o serviço. Aproveitando a oportunidade,
Barreto instala diversos armazéns no estado,
ajudando o setor a enfrentar aquele grave momento.
O governo, diante do excesso de café, e impedido
de destruí-lo em função dos compromissos
internacionais que estavam em discussão –
Oswaldo Aranha havia proposto o Acordo Internacional
do Café em 1954, na sede das Nações
Unidas –, chama o setor privado para buscar
saídas. Ruy Barreto participou da solução
encontrada: direcionar aquele café ao mercado
doméstico. O governo passou a subsidiar 80%
do preço do café adquirido para o consumo
interno. Através desse programa, que durou
treze anos, o consumo de café no Brasil, inferior
a 2 milhões de sacas e de péssima qualidade,
registra um salto considerável, consolidando
o país como um dos maiores consumidores mundiais
de café e reduzindo a dependência do
mercado externo.
Ruy Barreto continua acreditando no futuro da cafeicultura
brasileira e acha que a expansão do plantio
de grãos deverá empurrar o café
para regiões montanhosas. “A tendência
do café é subir o morro, liberando vales
e planícies para as culturas mais mecanizáveis”,
prevê o empresário.
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